domingo, dezembro 21, 2008

A chama imensa: O presente número 1.

Por Ricardo Araújo Pereira (in ABola)

SE tudo correr normalmente amanhã, o Benfica passa o Natal em primeiro. Assim é que é bonito. Cumprem-se os votos de Natal: festas felizes com saúde, paz, e o Benfica em primeiro. Aliás, se o Benfica estiver em primeiro, eu nem faço questão na saúde e na paz. A doença e a guerra que me apanhem, a ver se eu me importo.

Em todo o caso, amanhã o Benfica tem o dever de proporcionar um Natal feliz a todos os portugueses, especialmente aos da Madeira. Na última jornada, o Marítimo levou 6. Amanhã, o Nacional devia levar outro tanto. Não gostaria que os madeirenses passassem esta época, que deve ser de paz, a fazerem pouco uns dos outros. Para ninguém se ficar a rir, mais vale dar um cabaz igual a estes. Isso é que é natalício.

Se conhecesse o Sporting, talvez Prokofiev não tivesse composto a peça Pedro e o Lobo. É possível que tivesse optado por compor Moutinho e a Lesão.

Como não conhecia o Sporting, Prokofiev não compôs esta obra, bem mais interessante que a primeira. E além disso, como todas as pessoas que não conhecem o Sporting, morreu mais feliz. Semanalmente, contudo, o espectáculo Moutinho e a Lesão é apresentado a todos os apreciadores de futebol vivos (e mesmo, acredito, a alguns mortos, porque tenho a certeza que certos gritos de Moutinho conseguem ser ouvidos no Além).

A história de Moutinho e a Lesão é sempre a mesma: de repente, a meio de um jogo, Moutinho cai como se tivesse sido abatido por uma rajada de metralhadora. Na bancada, ouve-se: «Foi atingido por um sniper!» «Não, foi atropelado por um Scania!» São boas hipóteses, mas normalmente foi só uma carga de ombro. Uma vez estendido na relva, começa a gritaria. João Moutinho é um homem que, tendo apenas duas pernas, consegue gritar como se lhe tivessem partido três. A partir daí, a actuação divide-se em três momentos: primeiro, Moutinho esfrega vigorosamente o local do corpo em que alega ter sido atingido; depois, estica-se para trás e agarra-se à cabeça porque a dor está quase a fazê-lo perder os sentidos; finalmente, levanta-se.

Entre a altura em que Moutinho está à beira da invalidez permanente, debaixo de dores excruciantes, e o momento em que se levanta para continuar a praticar sem limitações um desporto em alta competição, costumam distar 30 segundos.

Trata-se de um rapaz mais resistente do que parece. Até há quem diga que ele só grita daquela maneira porque, sendo pequenino, tem medo que o condutor do carro-maca não dê com ele. Assim, vai lá ter certinho.

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